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Reforma Íntima
Celeste Carneiro
Na
vida, estamos sempre sendo desafiados nos
mais diversos setores de atividades. São
desafios quanto às obrigações
domésticas, às responsabilidades
profissionais; somos desafiados nos deveres
públicos e sociais, nos compromissos
religiosos, no relacionamento com as pessoas.
São testes ao nosso aprendizado,
que às vezes dura anos e que é
provado em apenas alguns minutos. Quantas
vezes passamos anos a fio aprendendo a lição
do desprendimento, para sermos analisados
num tempo mínimo e decisivo para
a nossa evolução?!
Mas,
há um desafio que supera todos os
demais; é o do aprimoramento íntimo.
Vencer o orgulho, libertar-se do egoísmo,
esquecer mágoas, não se ofender,
não se irritar, viver em harmonia
com o mundo exterior e interior, são
as suas formas mais sérias.
Estamos
sempre fazendo bons propósitos, mas
ainda trazemos muitas limitações
e hábitos arraigados que só
com a perseverança e o bom ânimo
conseguiremos libertar-nos.
É
comum, nesses exercícios de reforma
íntima, nos deprimirmos com a idéia
de que estamos piores do que éramos
antes, mas isto acontece porque já
nos conhecemos melhor. Antes, existia o
defeito e não tínhamos consciência
dele. Faltava, talvez, oportunidade para
que se manifestasse tão visivelmente.
Agora, num degrau um pouco mais alto, enxergamos
mais, temos uma visão mais ampla
do nosso mundo interior. E essa visão
quase sempre nos assusta um pouco. Antes,
éramos muito condescendentes com
os nossos erros e, na maioria dos casos,
tínhamos medo de nos conhecer.
Não
gostamos de ficar sozinhos nem inativos.
Quando não existem outras possibilidades
de companhia, ligamos o rádio, o
aparelho de som ou a televisão e
não nos permitimos conhecer-nos.
Temos sempre a preocupação
de estar fazendo algo, mexendo com nosso
corpo, com nossa língua, com nossos
olhos. Criamos doenças para ficar
com a mente ocupada. Fazemo-nos fiscais
severos dos defeitos alheios como se, ao
anunciarmos as falhas dos outros nos estivéssemos
isentando dos mesmos...Não conseguimos,
assim, esvaziar a mente, fazer silêncio
interior necessário para o crescimento
espiritual.
André
Luiz, num dos seus livros psicografados
por Chico Xavier, conta que, numa excursão
pelas regiões umbralinas, encontrou
uma senhora a gritar, pedindo socorro, alegando
que, quando encarnada, houvera trabalhado
com Dr. Bezerra de Menezes. E gritava e
alegava a sua aproximação
com o “Médico dos Pobres”,
mas inutilmente, pois a caravana socorrista
ainda não tinha permissão
para atendê-la. Ela houvera trabalhado
muito, o que é sempre bom e necessário,
mas esquecera do mais importante: trabalhar-se.
“Não adianta salvar o mundo
e não salvar a si mesmo.”
Ângela
Maria La Sala Batà nos apresenta
os vários estágios evolutivos
que conduzem ao autoconhecimento:
1º)
O estágio de identificação
com o corpo físico e os instintos
– O mundo psíquico ainda parece
irreal ou inexistente e há uma identificação
muito grande com o corpo físico e
tudo o que lhe diz respeito.
2º)
Identificação do eu com o
mundo emotivo – Há uma completa
identificação do eu com o
estado de ânimo do momento. Quando
sente alegria afirma ser uma pessoa alegre,
quando num momento sente tristeza diz ser
triste. O eu é multíplice,
inconstante, numa condição
de confusão, desordem e de incerteza
interior.
3º)Identificação
do eu com o pensamento – Sente a dualidade:
pensamento e emoções. A mente
tem o poder de controlar as emoções
e os instintos, e começa a descobrir
o mecanismo do pensamento e a arte de pensar,
identificando o eu com o intelecto, descobrindo,
mais tarde, a vontade, que dá a sensação
de força, de poder, e sobretudo de
síntese interior. É aí
que aparece a personalidade integrada.
4º)
Estágio da personalidade integrada
e consciência do eu pessoal ou fenomênico
– Há a ilusão de haver
alcançado o ápice de seu desenvolvimento.
Sente-se eficiente, forte, volitivo, com
metas e objetivos bem precisos, o que é
pálido reflexo de uma consciência
mais ampla que espera por manifestar-se.
Nesse ponto, está apto para exprimir
e manifestar o Eu Superior. Há, porém,
o reforço do egocentrismo e o senso
de auto-afirmação.
5º)
Estágio intermediário entre
personalidade e Alma e sentido de dualidade
– Há grande conflito entre
o eu inferior, bem conhecido e evidente
e um eu superior, um pouco misterioso e
velado, mas do qual sentimos o infinito
poder. Há uma dualidade ilusória,
pois o eu é uno e projeta um raio,
um reflexo seu na personalidade. Passa-se
a ter atitude de espectador, com necessidade
de analisar-se, de conhecer-se, de estudar
sua psique, seus estados de ânimo
e pensamentos.
6º)
Estágio da consciência do Eu
Espiritual ou Alma – É o encontro
consigo mesmo, e, encontrando a si mesmo
encontra-se Deus, que está no centro
do homem. É o estágio dos
“Iluminados”. Tem início
uma vida nova, de reconstrução
da personalidade e sublimação
das energias inferiores em identificação
com as esferas mais elevadas. É um
ponto de partida, mais que um ponto de chegada.
Uma vez ocorrida a revelação
da consciência da Alma, haverá
dentro de nós uma nova força,
um novo poder e uma constante e profunda
serenidade que nada poderá ofuscar.
(1)
Quando
Allan Kardec perguntou: “Qual o meio
prático mais eficaz que tem o homem
de se melhorar nesta vida e de resistir
à atração do mal?”
recebeu a resposta de Santo Agostinho: “Um
sábio da antiguidade vo-lo disse:
Conhece-te a ti mesmo. Na questão
seguinte ele traça um excelente roteiro
para o autoconhecimento, fazendo-nos sentir
a grandeza do ensinamento de Jesus: “Conhecereis
a verdade e ela vos libertará.”
(2)
Quando
atingirmos esse estágio, seguiremos
a Jesus sem vacilações, sem
questionamentos, atendendo ao seu convite
tal como fez Mateus. (3)
Mateus,
ou Levi, trabalhava numa coletoria; certo
dia surgiu alguém à porta,
de beleza singular e lhe disse apenas: “Segue-me!”
O seu olhar, ao se encontrar com o daquele
Homem, divisou paisagens sempre entressonhadas
e suave luz iluminou um caminho pelo qual,
desde há muito, estava à espera;
a Sua voz parecia sinfonias nunca ouvidas
antes, que possuíam o poder de acalmar,
alimentar, sustentar e encher de amor sua
alma que intimamente O esperava. Não
titubeou: largou tudo e O seguiu sem nada
perguntar. Não precisava.
Por
enquanto, nos identificamos com o “Moço
Rico” que, ao ser convidado a desprender-se
de suas posses, entristeceu-se e saiu da
presença do Mestre para usufruir
os bens que “a traça rói
e a ferrugem destrói.”
Outros,
já conseguem ser como Paulo de Tarso
que, visitado, inesperadamente, pela intensa
luz de Jesus, causando-lhe a perturbação
física momentânea, predispôs-se
a serví-lO sem delongas e inquiriu:
“Senhor, que queres que eu faça?”
Também,
para nós, há o momento dos
testemunhos, do chamado para as verdades
espirituais, em que a dor nos visita como
bênção generosa a nos
indicar o caminho mais curto para a iluminação
interior. É quando travamos a intensa
batalha íntima, rimos, disfarçando
prantos, distribuímos, muitas vezes,
a paz e a felicidade de que nós mesmos
estamos carentes, à sua procura.
Em
momentos assim, não nos esqueçamos
que um novo dia está próximo
e que o bem vence tudo, procurando o aconchego
no coração do Mestre, que
nos acolherá e consolará,
enchendo-nos de esperanças novas
e bom ânimo, a fim de prosseguirmos
na luta incessante do aprimoramento íntimo.
Celeste
Carneiro
_____________
(1) Guia para o conhecimento de si mesmo
– Ângela Maria la Sala Batà
(2) O Livro dos Espíritos –
Allan Kardec – questão 919
(3) Mateus – 9:9
Extraído
da Revista Presença Espírita
- dez./1983
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