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O Cego de Nascença
(João, 9:1-41)
Celeste Carneiro
Era um espírito de certa elevação
espiritual.
Não tinha mais débitos perante
as leis divinas e ansiava crescer em direção
ao Pai. A expiação não
se fazia mais necessária, precisava,
sim, de provar a si mesmo a firmeza de suas
conquistas morais, a comprovação
de que realmente conseguira iluminar-se
com as virtudes adquiridas ao longo da sua
caminhada.
Sentia necessidade de viver uma experiência
na Terra, onde, pobre e cego de nascença,
exercitaria a humildade e a resignação,
com a oportunidade de, dia após dia,
penetrar no mais recôndito do seu
eu interior, recapitulando lições,
revendo sentimentos, criando imagens próprias,
buscando entender a grandeza de Deus...
Preparou-se
então para reencarnar.
Viveu em Jerusalém, na época
em que Jesus também vivia entre nós.
Sendo pobre e cego, passou a mendigar. Costumava
ficar na porta do Templo de Jerusalém,
e todos lhe conheciam e sabiam a sua história.
Aquele, era um dia especial.
Sendo já um homem, talvez na faixa
dos trinta anos, aquietado nas suas perquirições,
sentia uma integração com
o todo universal, uma sensação
de plenitude que o fazia sentir que tudo
estava certo, nos seus devidos lugares e
não havia mais anseios, desejo algum.
Havia, sim, um cheiro de paz no ar...
Foi
quando aconteceu.
Ouviu
um leve burburinho e uns dedos delicados
passando em seus olhos uma substância
úmida e mole. Uma voz em forma de
música celestial lhe diz para ir
lavar-se na piscina de Siloé, ali
próxima.
Ele
vai, lava-se e... passa a ver!
E
o que vê à sua frente? O Filho
do Homem, o Cristo, o Salvador, a Luz do
Mundo!
Ele que durante tantos anos buscava clarear
o seu mundo íntimo, no momento em
que consegue, recebe a graça divina
de ver a luz do mundo trazida para ele por
intermédio daquele que diz ser a
própria Luz do Mundo!
Os
seus olhos se iluminam ao encontrar o infinito
no olhar daquele Mestre, que ele passa a
considerar um Profeta, e a alegria espouca
em seu íntimo, quais fogos de artifício
em noite de festa. Sai correndo e mostra-se
aos seus familiares, vizinhos, amigos e
aos freqüentadores do Templo, liberto,
convicto, seguro de si, confiante e pleno.
Não se incomodava com a incredulidade
e frieza de coração dos que
trabalhavam no Templo. Estava envolvido
por outras vibrações, que
só aqueles que passaram vitoriosos
por longos testemunhos poderiam compreender...
Estava
aberto ao novo e ao que elevasse o humano
ao divino.
Encontra
outra vez aquele que lhe dera luz aos olhos
e ouve-o perguntar-lhe:
-
“Crês no Filho do Homem?”
Ele
responde com outra pergunta:
- “Quem é, Senhor, para que
eu creia nele?”
Jesus
lhe diz:
- “Já o viste, e é ele
quem fala contigo.”
- “Creio, Senhor” e prostra-se
diante dele.
Agora,
estava consciente de quem lhe houvera restituído
a visão, dando-lhe também
luz interior.
Ele,
que nada pedira, recebera tudo o que é
mais sagrado: os “olhos de ver”.
Doravante,
seus caminhos nunca mais seriam os mesmos...
Quando a modificação acontece
no espírito, havendo um contato mais
prolongado com o seu Cristo interno, as
pessoas à sua volta não o
reconhecem, não acreditam na sua
transformação. Deixam de ver
um mendigo de luz para assistirem a própria
manifestação da luz, convidando
indiretamente a que o acompanhem nesse roteiro
plenificador.
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