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Mágoa
Celeste Carneiro
Um dos nossos mais obstinados inimigos,
que mais nos impede o progresso espiritual,
é a mágoa.
Este sentimento corrosivo e pertinaz nos
vem acompanhando séculos a fio, induzindo-nos
a comprometimentos e vinculações
infelizes, dificultando-nos e atrasando
o encontro definitivo com a Luz.
Quando a mágoa nos visita o coração,
ameaçando alojar-se dentro dele,
tentemos educá-la, transformando-a
em sentimentos de compaixão e compreensão,
procurando, para isso, meditar em alguns
itens que nos auxiliarão a evitar
a sua presença e, uma vez instalada
em nós, modificar o
seu aspecto:
1
- Sempre que possível, não
use intermediários. Fale diretamente
com a pessoa do seu interesse.
Por timidez ou por comodismo deixamos, muitas
vezes, de nos dirigirmos à pessoa
com quem desejamos tratar de assunto do
nosso interesse ou de quem dependa a solução
para algum problema e passamos a dar ouvidos
às opiniões de terceiros,
retraindo-nos, magoados. Acontece que nem
sempre essas opiniões são
verdadeiras ou transmitem fielmente o pensamento
atual de quem nos importa.
Às vezes, as pessoas se baseiam em
opiniões emitidas, anos atrás,
em circunstâncias desfavoráveis,
dirigidas para quem precisava ouvir daquela
maneira.
Ou, o que é comum, os nossos intermediários
transmitem idéias que são
frutos de suas análises pessoais,
o que eles acham que o outro pensa, nem
sempre condizentes com a realidade, infundindo-nos
o temor de uma aproximação
para um diálogo amistoso e esclarecedor.
2
- Não trace roteiros para os outros.
As pessoas têm necessidades e limitações
que desconhecemos
Uma das mais freqüentes causas da nossa
mágoa é o hábito arraigado
que possuímos de traçar roteiros
para o próximo e criar expectativas
em torno de seus atos. E, o que é
pior, e como se já não bastasse
isso, esperamos que ele, nosso amigo ou
familiar, colega ou conhecido, tenha um
comportamento de santo e adivinho, agindo
sempre da melhor maneira possível
e adivinhando os nossos sonhos e expectativas.
Geralmente, não desculpamos suas
falhas, principalmente se estas nos atingem
pessoalmente.
Esquecemo-nos de que as pessoas têm
roteiros diferentes dos nossos, têm
necessidades e limitações
que desconhecemos e, assim como nós,
possuem defeitos e dificuldades, às
vezes divergentes das nossas, mas que, com
esforço constante, tentam superar.
3
- Quando lhe faltarem com um compromisso,
pense nos acontecimentos imprevisíveis
a que todos estamos sujeitos, assim como
nas falhas da Comunicação.
Ninguém gosta de ficar horas esperando
por alguém que não vem. Nem
de ter a frustração de alterar
um programa, de última hora, porque
o companheiro falhou na sua parte. E, aí,
a mágoa chega, ameaçadora.
Quando nos encontramos com o amigo faltoso,
verificamos que a mágoa foi sem fundamento,
desde que ele tentou, por diversas vezes,
entrar em contato conosco, mas não
conseguiu. O telefone dava sempre ocupado,
ou chamava e ninguém atendia, ou
quem atendeu não transmitiu o recado,
por algum motivo qualquer, também
justificável. E, às vezes,
nem deu para telefonar.
Todos nós estamos sujeitos a acontecimentos
imprevisíveis, que nos colhem de
surpresa, não dando tempo para desfazer
compromissos assumidos anteriormente.
Antes de nos magoarmos, esperemos a justificativa
do amigo. Estipulemos, antes, um tempo suportável
de espera, ao fim do qual, caso ele (a)
não chegue, trataremos de outros
interesses, sem ressentimentos; pelo contrário,
orando por sua paz.
4
- Não se aborreça com as opiniões
alheias a seu respeito.
Cada pessoa é um mundo indevassável
e surpreendente. Há pessoas que se
consideram infalíveis em suas análises
de personalidade dos que se lhe aproximam.
Traçam o perfil psicológico
das pessoas com a mesma facilidade com que
traçam um roteiro ao centro da cidade.
Por mais que convivamos com uma pessoa,
não a conhecemos integralmente. Poderemos
entrever facetas de sua personalidade em
determinado momento, mas estamos longe de
conhecer-lhe intimamente, por mais ligada
que nos seja.
Cada pessoa é um mundo indevassável
para nós, imprevisível porque
mutável, composta de inúmeras
facetas que se deixam mostrar de acordo
com a ocasião, as circunstâncias,
as pessoas que a cercam.
Desse modo, desculpemos quem nos analisa.
Em realidade, não nos conhecem como
pensam conhecer.
5
- Nada possuímos, nem somos donos
de ninguém.
O sentimento de posse tem sido a causa de
muitos sofrimentos. Sofremos quando nos
roubam os bens materiais, sofremos quando
perdemos afetos que julgávamos nossos.
Enquanto vivemos na Terra, estamos sujeitos
a freqüentes perdas. Tudo o que possuímos
são empréstimos da Divindade
para aprendermos as lições
do Amor na escola da Vida.
Nem tudo que é nosso nos acompanhará
na Grande Viagem. Deixaremos roupas e calçados,
casa e fazendas, carros e jóias e
tudo aquilo que se constitui interesse material:
as nossas pequenas posses, pelas quais tanto
brigamos e nos magoamos, nossos discos e
livros de estimação, nossos
objetos de uso pessoal e infinidades de
coisas que nos apegamos tanto e um dia seremos
obrigados a deixar para que os outros façam
o que bem queiram e entendam...
Porém, a mágoa que mais dói
e consome, é aquela causada pela
perda do ser amado. O sentimento de abandono
tem nos causado tanto ressentimento, que,
durante séculos vimos caminhando
para ressarcir as faltas cometidas perante
a Lei Divina, motivadas por essa forma de
sentir.
As pessoas têm o seu caminho próprio
que nem sempre é ao nosso lado por
muito tempo. Cada pessoa está conosco
apenas por um pouco, devendo seguir outros
rumos que não são os nossos.
Assim como nós passamos pela vida
de alguém, muitos também passam
pela nossa vida, deixando a experiência,
as lições, as boas lembranças.
Mesmo que alguém permaneça
durante toda a vida física ao nosso
lado, haverá períodos em que
estará distante emocionalmente, sintonizado
com outros interesses diferentes dos nossos.
Aproveitemos, pois, a presença dos
nossos afetos, para usufruirmos dos seus
sentimentos e vivermos esses momentos da
melhor maneira possível, a fim de
que sejamos um aconchegante raio de luz
em suas recordações.
Preparemo-nos para deixa-los partir a qualquer
momento, quando assim se fizer necessário,
distanciando-se para outras experiências,
nesta ou na outra vida, sem guardar mágoa
nenhuma, lembrando de que Deus é
quem verdadeiramente nos supre as carências
e nos acompanha eternamente.
6
- Dê mais uma chance. As pessoas se
modificam.
Quando alguém nos machuca o sentimento
e passamos a agasalhar a profunda mágoa
no coração, apertando o peito,
sufocando-nos a alma, firmamos o propósito
íntimo de nunca mais nos aproximarmos
dele (a), nem ensejar-lhe oportunidade alguma
de reatamento nos laços afetivos.
Ignoramos, certamente que em muitos casos,
o rompimento abalou-lhe a estrutura interna,
levando-o a profundas reflexões em
torno dos seus atos, dando início
a uma nova fase, com mudança de comportamento
para melhor, numa tentativa de reabilitação.
Nós somos mutáveis. Cada dia
crescemos um pouco, espiritualmente, estando
em contínuo movimento ascensional.
Experimentemos esquecer as ofensas e olhemos
quem nos fere com o olhar do perdão.
Isto nos fará viver melhor.
Procuremos dar mais uma chance, confiantes
de que as pessoas se modificam constantemente
e muitos aguardam uma oportunidade para
demonstrar o seu arrependimento e os seus
novos propósitos.
7
- Ao dizer "até logo",
pense que talvez o faça pela última
vez nesta vida.
Talvez, por instinto de conservação,
pensamos ou agimos como se esta vida no
corpo físico fosse eterna. Alimentamos
rixas infindáveis, conservamos rancores
e desavenças, adiando sempre o instante
de reconciliação e fraternidade.
Deixamos de valorizar e demonstrar nosso
afeto e admiração por quem
convive conosco, esquecidos de que, a qualquer
momento, Deus pode tira-los de nossa companhia,
assim como podemos também partir
de uma hora para outra.
Quantas pessoas partem para a Vida Espiritual
de repente, deixando-nos com a sensação
de perda de oportunidade de lhe fazer conhecido
o nosso afeto, apesar dos desentendimentos
passageiros!
Quantas vezes somos surpreendidos com a
inutilidade do ódio escurecendo nossa
aura, ao vermos partir, inesperadamente,
para o Além, aqueles que julgamos
odiar!
E quando teremos uma nova oportunidade de
reconciliação? Só Deus
sabe...
8
- Nem sempre navegamos em águas tranqüilas...
Dizem que uma dor nunca vem sozinha.
Às vezes, em nossa vida, temos a
impressão de que Deus recolheu tudo
o que nos diz respeito e jogou para cima.
Ao assentar, nunca será do mesmo
jeito que era antes.
Quando as águas do nosso mar se tornarem
revoltas, e os acontecimentos parecerem
querer nos levar de supetão, não
fiquemos magoados com a Vida.
Embora não podendo viver no mesmo
ritmo de antes, procuremos estar em paz,
aceitando que estes são momentos
especiais em nossa vida, não nos
perturbando por não podermos executar
normalmente as tarefas de rotina.
Aproveitemos para tirar vantagem da nova
situação, assimilando ao máximo
as lições que são oferecidas
nessa fase transitória e passageira.
Em períodos, assim, Deus está
mandando avisos, despertando-nos a atenção
para a Sua amorosa sabedoria...
Os contratempos que tanto nos aborrecem,
são providências divinas poupando-nos
de dores maiores.
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