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Momento de Escolha
Celeste
Carneiro
A cena era esta:
-
Pilatos sentado no tribunal para julgar
um homem, denominado Cristo, que se dizia
Rei de um reino que não era deste
mundo e que viera dar testemunho a Verdade.
-
A multidão enceguecida, comandada
pelos principais sacerdotes e anciãos
do Templo mais respeitado da época
- o Templo de Jerusalém.
-
O réu, silencioso e pacífico,
compreendendo a posição de
cada componente deste cenário e convicto
de sua missão na Terra.
-
Um prisioneiro chamado Barrabás,
considerado perigoso pelos seus crimes contra
as pessoas e contra a organização
política e social vigentes.
-
A esposa de Pilatos, Cláudia Prócula,
interferindo a favor do réu, movida
por um sonho que tivera naquele mesmo dia
do julgamento.
Pilatos
Pilatos
era Procurador da Palestina, região
de conflitos desde há muito tempo,
sendo a ponte entre o Egito e a Síria,
e controlada pelo imperador. Considerado
bom administrador, foi escolhido por Herodes,
o Grande. Sua função era administrar
a área militar e judicial da província,
escutar os problemas da população,
supervisionar o recolhimento dos impostos,
sem, contudo, poder para aumentá-lo.
Estava proibido de receber subornos e regalias
e o povo, caso houvesse algum exagero em
sua administração, poderia
denunciá-lo ao imperador.
Seu
governo na Palestina foi marcado por incidentes
que o deixou antipatizado pelos judeus.
Um deles foi quando Pilatos visitou Jerusalém
pela primeira vez. Era hábito dos
governantes romanos, em respeito aos costumes
judeus, ao entrarem na cidade ordenavam
aos soldados que baixassem os estandartes
que traziam o busto de metal do imperador
na extremidade, já que os judeus
só adoravam a Deus. Pilatos não
teve essa consideração, apesar
dos insistentes apelos dos moradores. Houve
um pequeno conflito, quando a população
judia foi ameaçada de morte. Eles
não se atemorizaram: deitaram quase
despidos e ordenaram que os soldados de
Pilatos os matassem. Seria comprometedor
para sua carreira se houvesse esse massacre.
Então Pilatos recuou e passou a fazer
como os governantes anteriores faziam.
Outro
incidente foi relacionado ao aqueduto em
Jerusalém. Por ser deficiente a distribuição
de água da cidade, Pilatos construiu
um novo aqueduto. Só que usou os
recursos do tesouro de Templo, que não
eram pouco. Houve novo conflito, dessa vez
com morte de vários judeus.
E
assim, Pilatos ia desrespeitando os costumes
religiosos de um povo, que uma vez já
o denunciou aos superiores, gerando um clima
de mal-estar, de insatisfação.
Corria o risco de ser deposto do seu cargo,
que ele tanto prezava, caso houvesse novas
queixas aos seus superiores.
A multidão
E
o povo estava ali, na sua frente, clamando
que ele condenasse um Homem que não
tinha culpa nenhuma, que transmitia uma
serenidade que o deixava perplexo, um Homem
possuidor de uma dignidade de Rei!
A
multidão, comandada pelos principais
sacerdotes do Templo da Cidade Santa, não
suportava mais conviver com aquele Nazareno
de superior hierarquia espiritual. Sentiam-se
humilhados com a Sua presença, desnudados
os seus interesses escusos, impossibilitados
de realizar o que ele fazia com naturalidade
e amor incondicional, extremamente distanciados
dos Seus pensamentos, conhecimentos e sentimentos...
O réu
O
réu, Jesus, também chamado
o Cristo, conhecia bem o íntimo de
todos eles... Sentia compaixão pelos
seus desvarios, mas compreendia o estágio
de imaturidade em que se encontravam. Nascera
exatamente para revelar o destino que os
aguardavam, a amorosidade do Pai que conduzia
seus filhos por caminhos de aprendizado,
de crescimento e de luz... Todos, um dia,
seriam iguais a Ele, Jesus; fariam tudo
o que Ele fazia e mais ainda. A paz profunda
e imperturbável que Jesus possuía,
também estaria no coração
da multidão: era uma questão
de tempo. E o tempo Ele contava de forma
diferente. A luz que dele irradiava todos
tinham no seu interior – estava apenas
oculta por camadas mais ou menos espessas,
aguardando oportunidade para se manifestar.
O ser humano é luz, ensinava Ele.
Jesus
sabia que estava indo para o sacrifício
da cruz. Era, segundo alguns, o último
estágio de uma iniciação
que o engrandeceria ainda mais. Sabia também,
que se revelaria aos seus discípulos,
aparecendo entre eles como se a morte não
existisse, como de fato assim é,
com toda aparência de corpo material,
o que lhes daria alento e marcaria por toda
a eternidade, fazendo-os compreender a imortalidade
da alma, a veracidade dos seus ensinamentos,
a certeza do amor infinito do Pai. A sua
volta ao mundo físico após
a crucificação deu um atestado
que nenhum profeta ou enviado deu antes,
eternizando e expandindo para toda a Terra
a sua mensagem.
O prisioneiro
Barrabás,
que significa “filho de pai”,
cujo nome completo era Jesus Barabbas, era
um criminoso revolucionário, que,
segundo alguns, havia jurado libertar os
palestinos do domínio romano, ainda
que para isso fosse necessário usar
da violência, de roubos e assassinatos.
Era um famoso prisioneiro.
A esposa de Pilatos
Cláudia
Prócula, considerada santa pelas
igrejas gregas e etíopes, era, por
certo, iniciada nas doutrinas esotéricas
da época, dando especial atenção
às mensagens reveladoras dos sonhos.
Segundo Mateus, ela tivera um sonho onde
percebera a grandeza de Jesus de Nazaré,
assim como sua missão e sacrifício.
Compreendendo a importância daquele
julgamento, sofre com o possível
comprometimento do seu esposo, e se aflige
a ponto de enviar um mensageiro, advertindo-o.
Pilatos,
lembrando de um outro sonho histórico,
quando Calpúrnia sonha com Júlio
César coberto de sangue e lhe suplica
para não sair de casa. Ele não
lhe atende e sai, sendo assassinado. Então
Pilatos declara que não vê
culpa nenhuma no acusado, lava as mãos
e entrega o réu aos judeus para que
eles o crucifiquem... É importante
para Pilatos não perder o seu posto
de comando.
Trazendo
esse cenário para o nosso mundo interior,
podemos perceber a figura de Pilatos como
a personificação do nosso
Ego, da nossa personalidade, aquela parte
de nós que conhecemos no dia-a-dia,
que se relaciona com a vida material e que
é conhecida pelos demais.
A
multidão, comandada pelos principais
sacerdotes do Templo, são as nossas
sombras, os nossos aspectos desconhecidos
que jazem na escuridão do nosso inconsciente,
herança das experiências mais
primitivas que de vez em quando nos surpreendem
e nos puxam para baixo... São a representação
dos nossos interesses mais materiais: “O
corpo é o Templo onde o Espírito
Santo habita nele”, como diz o Evangelho.
O
réu, tão espiritualizado quão
incompreendido, é a nossa individualidade,
a essência, a centelha divina que
brilha em cada um de nós. A paz,
a harmonia, o poder curador, a perfeita
compreensão das coisas e das criaturas
do mundo e o amor sem limites, incondicional,
estão aí representados e fazem
parte do Ser.
Barrabás,
é a nossa subpersonalidade eleita,
aceita, conveniente. É a sombra que
a maioria tem e deseja livre para se manifestar,
sem ofender nem envergonhar os demais parceiros
evolutivos. É aquilo que “todo
mundo faz porque ninguém é
santo”...
A
esposa de Pilatos personifica a ânima,
o feminino que habita o interior do homem.
É a mensageira da sabedoria, do mundo
espiritual elevado. Pode ser também
o símbolo da intuição,
essa capacidade inerente ao ser humano que
serve de ligação entre o material
e o espiritual e que quase sempre não
lhe damos ouvidos.
Enquanto
estamos na vida aqui na Terra, periodicamente
passamos por avaliações para
galgarmos patamares mais elevados em nossa
experiência evolutiva. São
momentos decisivos e conflitantes.
Uma
parte de nós quer a paz, a sabedoria,
o amor puro e grandioso... Outra parte em
nós ouve o clamor daquilo que estamos
acostumados a viver, que a maioria vive...
E se rebela gritando, tomada pela energia
que percorre contagiando a multidão
de seres ancestrais que vibram no íntimo
do ser, exigindo que seja sacrificada a
parte de luz que ainda incomoda, por julgarmos
ainda inacessível e distante, longe
dos padrões aceitos pela maioria
das pessoas que convivem conosco...
Como
diz Emmanuel, elevar-se aos cimos produz
solidão, pois quem nos escutará
estando na planície?
Prestemos
atenção aos momentos em que
viveremos um julgamento desse tipo. Esforcemo-nos
para absolver o réu pacífico
e pacificador a fim de que a Terra se ilumine
e se deixe penetrar por um alo de paz, repleta
de amor e de compaixão.
Maio/junho/2002
Bibliografia:
Novo
Testamento- Mateus: 27:15-23
Sabedoria do Evangelho, vol. 8 - C. Torres
Pastorino
El Nuevo Testamento - William Barclay
Jesus no seu tempo - Daniel Rops
Fonte Viva, cap. 70 - Emmanuel
Obras da Psicologia Junguiana e da Psicossíntese
de Roberto Assagioli
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