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Inteligências
Múltiplas - Do QI ao QS
Celeste Carneiro
O governo francês, em 1900, preocupado
com o rendimento escolar de suas crianças,
encomendou ao psicólogo Alfred Binet
um teste para avaliar quais as crianças
que seriam bem sucedidas nos primeiros anos
escolares e quais as que não conseguiriam
ir bem nos estudos, buscando uma forma de
auxiliar estas a obterem melhor aproveitamento
na escola.
Por
volta de 1908 já empregavam este
teste, chamado de Quociente de Inteligência
– QI.
Esta
forma de avaliação criada
por Binet e colaboradores avaliava a capacidade
lingüística e lógico-matemática,
obtendo, com precisão, um perfil
da inteligência do indivíduo.
Como
tudo o que era lançado em Paris,
chegava em outros países, os cientistas
e educadores dos Estados Unidos receberam
essas informações com entusiasmo.
Na
época da Primeira Guerra Mundial
o QI já era célebre. Foi amplamente
utilizado para recrutar os soldados que
seriam mandados para a Guerra.
Em
1967, em Harvard (EUA) foi criado o Projeto
Zero, na Harvard Graduate School of Education,
pelo filósofo e epistemólogo
Nelson Goodman. Desafiando a noção
universal de que os sistemas simbólicos
lingüísticos e lógicos
tinham primazia na forma de se expressar
e de se comunicar, ele pesquisava outros
sistemas simbólicos utilizados pelos
seres humanos.
Goodman
pesquisou os sistemas simbólicos
utilizados nas artes, como a música,
a poesia, os trabalhos corporais e visuais-gráficos.
Adotava uma forma de observação
cognitiva, pois, para ele, as artes eram
vistas também como uma atividade
mental, onde o artista precisava saber “ler”
e “escrever” o sistema simbólico
artístico, como diferenciar tipos
de música, definir formas e cores
para expressar estados emocionais diversos,
saber estilos, distinguir conteúdos,
etc.
Naquela
época as artes estavam envolvidas
por um ar de mistério, carregadas
de emoção e magia, sendo mais
um produto da intuição e da
inspiração. A cognição
estava vinculada à ciência
e à solução de problemas.
No
início da década de setenta
o Projeto Zero passou à direção
conjunta de David Perkins e Howard Gardner,
que se dedicaram mais a questões
psicológicas. Perkins, com o Grupo
de Capacidades Cognitivas, onde pesquisava
a percepção e cognição
dos adultos e Howard Gardner com o Grupo
de Desenvolvimento, estudando o uso de representações
simbólicas por crianças normais
e por crianças talentosas. Estes
cientistas vêm procurando aplicar
as análises e entendimentos decorrentes
das pesquisas a programas escolares, desde
as séries iniciais até a universidade.
Criou-se, então, o Arts PROPEL, com
as pesquisas das representações
artísticas relacionadas ao desenvolvimento
humano.
Em
1979 foi solicitado a este grupo de pesquisadores
a investigação sobre A Natureza
e Realização do Potencial
Humano, que culminou com a publicação
do livro de Howard Gardner Estruturas da
Mente, em 1983.
Neste
livro ele apresenta o resultado de sua investigação
do potencial humano, constatando que existem
não apenas as inteligências
testadas pelo QI, mas um número desconhecido
de capacidades diferenciadas. Para ele,
inteligência é uma capacidade
de resolver problemas e elaborar produtos
de valor num ambiente cultural ou comunitário,
podendo ser feito isto de múltiplas
maneiras. Inicialmente essas inteligências
foram catalogadas em sete, sendo expressas
de formas diferentes, de acordo com cada
pessoa. São elas:
1.
verbal/lingüística – facilidade
para se comunicar através de palavras,
seja escrita ou oral
2.
lógica/matemática –
habilidade para raciocínio lógico
e resolução de problemas matemáticos
3.
musical – capacidade de criar, tocar,
identificar ritmos e músicas
4.
corporal/cinestésica – habilidade
de se expressar usando o corpo, assim como
executar tarefas com o corpo
5.
visual/espacial – capacidade de percepção
visual acurada, de localizar-se no espaço,
de imaginar mentalmente, tanto formas como
lugares
6.
interpessoal – habilidade para se
comunicar com as pessoas com empatia, identificando
o que os outros sentem e necessitam, gerando
harmonia
7.
intrapessoal – facilidade de autoconhecimento,
Atualmente
foi acrescentada a inteligência naturalista
– interesse pela natureza, com capacidade
de identificar e classificar os diferentes
seres da natureza, e a existencial –
também chamada espiritual, que é
quando a pessoa tem a tendência para
questionar e compreender os grandes mistérios
da vida, como o porquê da vida, do
sofrimento e da morte, o conhecimento dos
meios que levam ao divino, o contato com
Deus; esta última ainda em estudo
por Gardner, pois ele não havia identificado
uma região no cérebro vinculada
a este tema.
Todos
os seres humanos possuem essas inteligências,
mas algumas são mais desenvolvidas
que as outras. Elas interagem entre si,
se comunicam, porém algumas são
mais facilmente externadas que outras.
*
Os
cientistas, nas últimas décadas,
têm se debruçado sobre o cérebro,
este maravilhoso e intrigante órgão,
que pesquisa e é pesquisado, de forma
incansável e com resultados surpreendentes.
Inicialmente
considerado como algo “eqüipotencial”,
no dizer de Gardner, “com cada área
capaz de servir à variedade das capacidades
humanas”, atualmente as observações
indicam “que áreas específicas
do córtex possuem focos cognitivos
específicos, e que, especialmente
depois da infância inicial, existe
pouca “plasticidade” na representação
das capacidades cognitivas no sistema nervoso
(Gardner, 1993).
Em
1981 o cientista Roger Sperry ganhou o prêmio
Nobel em Medicina e Fisiologia por causa
de suas pesquisas relacionadas às
funções cerebrais. Ele, juntamente
com sua equipe, conseguiu relacionar várias
regiões do cérebro com as
suas funções específicas,
clareando o papel do hemisfério cerebral
direito, até então pouco conhecido.
Dentre
outras descobertas, até agora ficou
esclarecido que a linguagem, o raciocínio
lógico, determinados tipos de memória,
o cálculo, a análise são
próprios do hemisfério esquerdo.
Enquanto que o direito não usa palavras,
é intuitivo, usa a imaginação,
o sentimento e a síntese.
O
hemisfério esquerdo do cérebro
interpreta literalmente as frases ditas,
já o hemisfério direito percebe
a intenção oculta de quem
fala. O esquerdo entende pelo aspecto lógico,
racional e seqüencial e o direito compreende
aos saltos, tem insight e visão holística.
O
nosso alfabeto, por ser silábico,
estimula o hemisfério esquerdo; os
ideogramas dos orientais, utilizando símbolos,
desenvolvem o hemisfério direito.
No idioma japonês, por exemplo, que
são usados símbolos e sílabas,
os dois hemisférios são estimulados
no ato da leitura.
O
hemisfério esquerdo percebe sons
relacionados com a linguagem verbal e o
hemisfério direito percebe músicas
e os sons emitidos pelos animais.
O
famoso compositor Maurice Ravel teve um
Acidente Vascular Cerebral (AVC) no hemisfério
esquerdo, na área de Wernicke. Emudeceu,
perdeu a compreensão e a expressão
da linguagem. Ele conseguia tocar piano,
se sabia a música de cor, mas não
tinha condições de tocar lendo
partituras e não conseguia compor
novas músicas, ou seja: transmitir
através de interpretação
ou escrita, juntar caracteres para formar
frases ou melodias.
*
Surgiram
novos instrumentos de avaliação
do funcionamento do cérebro, como
o MRI – imagens de ressonância
magnética de alta resolução;
o PET – tomografia de emissão
de pósitron; mais recentemente o
MEG – magnetoencefalógrafo,
que é um aperfeiçoamento do
EEG – eletroencefalograma e o TMS
– estimulação eletromagnética
transcranial.
Na
década de noventa, conhecida como
a Década do Cérebro, muitos
estudos foram desenvolvidos nessa área.
Daniel
Goleman publicou seu famoso livro Inteligência
Emocional, (QE) onde valoriza a inteligência
interpessoal e a inteligência intrapessoal.
Sem elas dificilmente pensaremos e analisaremos
com eficiência, e nosso relacionamento
com as pessoas será insatisfatório.
Na
Universidade de San Diego, Califórnia
(EUA), o neurologista Vilayanu Ramachandran,
diretor do Centro para o Cérebro
e a Cognição, identificou,
em 1997, o “ponto divino” no
cérebro humano, localizado entre
conexões neurais nos lobos temporais.
É o local ativado quando se tem uma
experiência mística. Trabalhando
com pacientes epilépticos afetados
no lobo temporal, com freqüente sensação
de déjà-vu e alucinações
visuais e auditivas, percebeu mais luminosidade
nessa área. Resolveu experimentar
com pessoas sadias, através do PET,
o que ocorria ao ser mencionada a palavra
Deus, ou símbolos que os levassem
à transcendência, de acordo
com a cultura do pesquisado. O resultado
foi o mesmo.
Em
2000 Danah Zohar e Dr. Ian Marshall, no
livro QS – Inteligência Espiritual,
demonstram como funciona no cérebro
este tipo de inteligência que aborda
e soluciona problemas de sentido e valor,
questões acerca do bem e do mal,
sentir compaixão, alterar paradigmas.
O QS unifica, integra e modifica o material
que surge do QI e do QE. Integra razão
e emoção.
Melvin
Morse, o famoso pesquisador de Experiência
de Quase Morte, também publicou um
livro em 2000, sobre este assunto. Intitula-se
A Divina Conexão.
Em
setembro/2003, a revista francesa Sciences
et Avenir publicou como reportagem de capa,
o tema: Deus habita no cérebro direito.
Um dos artigos, A biologia da fé,
narra as experiências realizadas pelo
Dr. Michael Persinger. Com um capacete emitindo
ondas magnéticas são estimulados
os lobos temporais do cérebro, fazendo
com que o sujeito sinta algo semelhante
ao sentimento do divino narrado pelos religiosos
quando em meditação ou em
prece.
Um
outro artigo desta revista, Três experiências
religiosas ao microscópio –
Scaner do êxtase, conta a pesquisa
realizada pelo neurofisiologista Andrew
Newberg e o antropólogo das religiões
Eugene dÁquili, da Universidade da
Pensilvânia (EUA), com monges e freiras,
convidados à meditar e orar, enquanto
eram monitorados pelo aparelho de tomografia
por emissão de pósitrons (PET).
Neste experimento, foi detectada uma luminescência
maior no lobo parietal direito de cada pessoa
pesquisada.
Vilayanu
Ramachandran, em recente artigo publicado
pela Revista Cérebro e Mente, da
UNICAMP, narra o resultado de suas observações
em pessoas com lesões no lobo temporal:
elas passam a se expressar de forma surpreendente
através das artes e, de acordo com
pesquisa realizada na Austrália,
usando estimulação eletromagnética
transcranial (TMS) e silenciando temporariamente
os lobos frontais em adultos normais, a
pessoa consegue fazer desenhos bem feitos
e bonitos. Pergunta ele: “teremos
que esperar por um derrame ou ataques epilépticos
para desencadear este potencial? Ou ele
pode ser conseguido através de meios
menos drásticos?”
*
Temos
percebido em nosso trabalho de estimulação
cerebral através da arte, que muitos
alunos realizam desenhos com temas espirituais,
embora não tenham hábito de
fazer este tipo de representação.
Um adolescente, no final de uma das suas
primeiras aulas, olhando para o seu trabalho,
disse surpreso: “mas eu costumo fazer
desenhos de caveiras, de homens lutando,
e agora eu desenhei São Francisco!”
Como
procuramos silenciar a mente e a voz enquanto
realizamos as tarefas artísticas,
provavelmente estimulamos também
este ponto místico e, ao mesmo tempo
revelamos o artista desconhecido que todos
nós somos, como vemos nestes desenhos:
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| Renata
Costa – 2003 |
Matheus
do Valle ( 6 anos) - 2001 |
Buscando
desenvolver cada tipo de inteligência
que trazemos em estado latente, estaremos
contribuindo para a nossa longevidade, formando
novas conexões entre os neurônios,
vivendo com maior clareza mental e dilatando
nossa percepção do outro ser:
aquele que está ao nosso lado e nem
sempre o compreendemos. Nossa dimensão
humana será mais ampliada e o divino
em nós, mais presente e consciente,
proporcionará um estado imperturbável
de paz.
Celeste
Carneiro
Novembro/2003
Fontes
recomendadas:
Gardner,
Howard. Inteligências Múltiplas
– A teoria na prática. Artmed,
Porto Alegre.2000
_______, Arte, Mente e Cérebro –
Uma abordagem cognitiva da criatividade.
Artmed, Porto Alegre. 1999
Goleman, PhD., Daniel. Inteligência
Emocional. Objetiva, Rio de Janeiro. 1995
Mecacci, Luciano. Conhecendo o Cérebro.
Nobel, São Paulo. 1987
Zohar, Danah, e Ian Marshall. QS –
Inteligência Espiritual. Editora Record,
RJ e SP. 2000Sciences et Avenir. Setembro
2003
Scientific American. Ano 2, nº 17,
outubro de 2003
Sites:
www.cerebromente.org.br
www.adorofisica.com.br/textos/textos_intelig.html
www.possibilidades.com.br
www.mapasmentais.com.br/modelos/educacao/mm_edu_inteligencias_multiplas.htm
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